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Temperamentos sem mentiras: crítica ao modelo simbólico

Nos últimos anos, sobretudo em meios católicos, e com efeito sobre outros cristãos, o tema dos temperamentos voltou a ganhar enorme visibilidade. À primeira vista, isso poderia parecer um avanço. No entanto, para quem tem mais base e é mais experimentado em termos doutrinários — principalmente em termos de Nova Era, como neste documento —, surge um dado inquietante: as explicações mais difundidas sobre os temperamentos continuam baseadas em simbologias antigas, pouco ou nada compatíveis com o conhecimento científico atual e com uma antropologia filosófica cristã coerente.

É compreensível que tais explicações atraiam. Elas oferecem uma linguagem acessível, aparentemente “tradicional” e não cientificista, além de oferecer o fetiche de um conhecimento oculto — o gatilho de vaidade da gnose. O problema é que, justamente por sua fragilidade epistemológica, acabam lançando descrédito sobre um fato real e observável: a existência de disposições temperamentais estáveis no ser humano. O resultado é conhecido: os temperamentos passam a ser visto, por muitos, como uma espécie de “signo de católico”, uma superstição revestida de linguagem religiosa e cultura pseudocatólica.

Esse preconceito é justo e não surge do nada. Ele é fruto direto de um salto epistemológico mal feito: tentar explicar a psicologia humana por meio de categorias simbólicas que não dialogam com a ciência moderna e que, além disso, não se sustentam dentro de uma antropologia filosófica cristã. Foi exatamente essa fragilidade que me levou a aprofundar o estudo dos temperamentos. As explicações disponíveis não respondiam ao essencial: o que são, por que existem e como operam. Ainda assim, apresentavam (e ainda apresentam) deduções carregadas de certeza, apoiadas em analogias frágeis. Diante disso, tornou-se inevitável “abrir o motor” do problema e reconstruí-lo desde a base.


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Este é o modelo dos temperamentos ainda utilizado.

O erro de fundo: quando a analogia vira explicação

O colérico é fogo ou “como o fogo”?
Mas por quê?

É aqui que ocorre o salto epistemológico.

A origem dessa associação não é cristã, nem científica. Ela vem do hermetismo, especialmente da tradição atribuída a Hermes Trismegisto. Nesse sistema, Deus não é compreendido como Pessoa — onipotente, onisciente e capaz de criar algo realmente distinto de si —, mas como a soma das qualidades do cosmos. Os elementos e as qualidades (fogo, terra, água e ar; quente, frio, seco e úmido) existiriam no “Criador” antes da criação, e o mundo seria uma espécie de emanação dessas propriedades.

O Corpus Hermeticum expressa isso de forma explícita:

“Ora, os elementos graças aos quais a matéria inteira tomou forma são em número de quatro: fogo, água, terra e ar; um mundo, uma alma, um deus.”

Nesse contexto, o homem surge como microcosmo do cosmos — não como criatura feita à imagem e semelhança de Deus, dotada de inteligência e vontade, mas como uma composição das mesmas forças e qualidades universais. É desse pano de fundo que muitos resgatam a simbólica dos temperamentos, frequentemente como reação apressada ao cientificismo da psicologia moderna — sendo generoso para não pecar por juízo temerário — que por vezes reduz o homem ao cérebro.

O problema é que essa reação incorre no erro oposto.

Hoje sabemos que a matéria não se explica por quatro elementos, mas por estruturas moleculares, atômicas e subatômicas. Conhecemos diferentes formas de energia, campos, partículas e interações. Insistir em explicar o homem a partir de categorias cosmológicas antigas não é fidelidade à tradição, mas anacronismo intelectual.

Há aqui também um componente cultural preocupante: um certo fetiche gnóstico e ocultista, presente em círculos semiletrados, que veem no simbolismo uma chave secreta da realidade. Influenciados por leituras guenonianas mal filtradas, passam a tratar o símbolo como princípio ontológico, acreditando possuir uma forma superior de conhecimento por “dominar a linguagem correta”.

O resultado é previsível: enquanto milhares aderem a essas explicações frágeis, aqueles que mantêm um mínimo de rigor científico passam a tratar o estudo dos temperamentos como pseudociência.


Nem oito nem oitenta: temperamentos requerem integrar com rigor

Não foram apenas grupos religiosos que se apropriaram dos temperamentos de forma acrítica. Modelos como o DISC também incorrem em saltos epistemológicos evidentes, assim como o visagismo, que critiquei em outro artigo aqui neste jornal — ainda que isso raramente incomode quem os comercializa. O DISC costuma ser associado à obra Emotions of Normal People, de William Moulton Marston, embora seja legítimo questionar quantos de seus divulgadores realmente a conhecem.

Diante desse cenário, no meu trabalho não rompi com o passado nem ignorei o presente. A solução não estava em descartar a história dos temperamentos, mas em integrá-la com critério. Não uma integração superficial, mas baseada no reconhecimento do que foi bem observado ao longo dos séculos, confrontado com dados atuais e organizado de forma epistemologicamente coerente.

Por isso, jamais parto do símbolo para o objeto. Faço exatamente o contrário. Não faz sentido, por exemplo, associar o colérico ao fogo, já que o colérico é marcado por constância, direção e perseverança, enquanto o fogo, como fenômeno físico, é instável e rapidamente se dissipa. Quando utilizo símbolos, eles surgem após a análise da realidade, nunca como ponto de partida.


Conclusão: não abandonar, mas resgatar

O estudo dos temperamentos não precisa ser abandonado; precisa ser resgatado — da simbologia mal compreendida, do hermetismo disfarçado e da linguagem que substitui explicação por metáfora, e, por outro lado, do cientificismo que vê o homem somente como cérebro.

Enquanto os temperamentos forem apresentados como fogo, água, terra ou ar, continuarão sendo tratados como crença. Quando forem compreendidos como estruturas reais, inseridas numa articulação coerente entre antropologia, psicologia, filosofia e teologia, voltarão a ocupar o lugar que lhes cabe: um instrumento sério — e possivelmente um dos mais eficazes — para compreender a condição humana.


A eficácia prática dessa abordagem pode ser verificada neste teste que desenvolvi, criado para identificar o temperamento de forma objetiva, precisa e sem a superficialidade comum a outros métodos. Clique aqui para acessá-lo.

Igor Carneiro

Igor Carneiro é advogado, escritor e pesquisador independente nas áreas de temperamento humano, ética e antropologia filosófica. Desenvolve estudos críticos sobre personalidade, caráter e identidade, integrando filosofia clássica, biologia e psicologia contemporânea. É colunista convidado e atua como consultor em desenvolvimento humano e análise de personalidade.

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Um Comentário

  1. Excelente abordagem. Faz tempo que vi alguém abordar o tema e citar o “Corpus Hermeticum”. Apesar da psicologia rechaçar o tema e taxá-lo como não científico, não quer dizer que o factual possa rechaçar possíveis análises mais profundas e observáveis.

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